Letrux faz climão dançante em noite de estreia de sua turnê em São Paulo

Gosto de pensar na idade que gostaria de ter novamente. Lembro de não passar batida na festinha, meninos de saia, maquiagens transcendentais pedindo ‘repeteco’ para os corpos do salão continuarem a flutuar.

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Numa quinta-feira fria, no Centro Cultural de São Paulo, a pele crua vira fumaça para dançar uma noite que promete ser de climão. Um microfone entrelaçado por velhas flores de plástico, um piano, um drink – quem chega perto do palco na estreia de Letrux com seu primeiro disco solo ‘Em Noite de Climão’ já pode colocar na cabeça que isso aquilo ali “vai render”.

É com essa música que Leticia Novaes, ex-vocalista e compositora do duo carioca Letuce, entra vestindo sua melhor persona e começa um show excêntrico no difícil palco-arena do Centro Cultural. Show esse que desde a primeira música já estava ganho – todos ávidos e ansiosos pelos ares frescos calcado em sintetizadores oitentista e baterias pulsantes da artista. Na plateia, outros grandes nomes como Ava Rocha, Karina Buhr, Liniker, Juliana Perdigão, Nana Rizini, Johnny Hooker assistiam atentos às performances hipnotizantes e poéticas de Letrux, que sussurrava enquanto conversava ou emitia poesias.

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Ela fala as línguas dos místicos, já teve tudo com todos, “Ninguém Pergunta Por Você” na festinha. Presta atenção nos seus olhos, maluco. Será que eles enxergam ou tudo é uma visão embaçada da vida? Ela caminha sem saber para onde ir, mas prefere seguir suas intuições ao abrir os olhos e ver onde tudo está, sempre quadrado, no seu devido lugar.

Com essa pequena introdução a batida dos beats de “Coisa Banho de Mar”. Quando ela canta “Que Estrago”, música em que divide os vocais com DUDA BEAT e Lomelino no registro em estúdio, as garotas lésbicas vibram ao delírio, porque a música conta uma experiência desnuda de um romance quente entre duas mulheres – aos ouvidos, Letrux seduz.

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O corpo dela, corpo de carnaval, canta “Puro Disfarce”, um dos pontos altos da noite, numa pegada rap com beats eletrônicos, e os que dançam vão entrando no clima das luzes.

Tudo fica mais cinza quando você sabe que até o amor ser bom ele é tão ruim, Leticia pede desculpas por essa música, mas sabe que precisa expurgar alguns demônios de seus antigos relacionamentos amorosos.

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Não fique triste, existem sete bilhões de pessoas no mundo e algumas delas estavam balançando a cabeça envolta de Letrux, naquela noite ninguém ficaria sozinho as cinco horas da manhã.

A banda de Letrux também é fantástica, com destaque para Arthur Braganti e Natalia Carrera. Próxima musica prepare o jazz que existe na ponta dos seus dedos, que “Além de Cavalos” faz você acreditar que nem sempre seu número da sorte pode te salvar. Nesse momento paramos para prestigiar a história de um filme que nunca foi contado. Leticia nos conta como conheceu seu tecladista Arthur Braganti, e de como uma cena onde nenhum dos dois conseguiam parar de rir virou uma parceria para a vida. Além de Arthur no piano contamos com a participação de Thiago Rebello (baixo), Natalia Carrera (guitarra) e Lourenço Vasconcellos (bateria). O show vai chegando ao fim e as envolventes “Hypinotized”, “Flerte Revival” e “5 years old”.

Quando uma pessoa tenta estragar o clima dançante gritando “Fora Dilma! ”, Letrux brinca: “Esse está querendo causar climão… Não vai conseguir”.

O sucesso do projeto se deu através do crowdfunding, onde a compositora interagiu com seus fãs e ouvintes com presentes que variavam entre seu disco físico que saiu pelo selo Joia Moderna, mapas astrais feitos por ela e até shows pequenos em noite de climão. Ao vivo, a persona iniciada por ela no cancioneiro oitentista no seu primeiro disco solo, se apresenta como uma fênix carioca, oscilando entre o gozo e a fossa, vestida de vermelho da cabeça aos pés – exalando empoderamento, tragicomédia e trazendo um frescor à uma cena musical que aos poucos se vê sufocada por bandas demasiadamente panfletárias.

Por: Ali Prando e Fernanda Carinci

Fotos: Aleph GhosnEricky Quadros e Hellen Vieira