‘A música que eu faço tem a ver com essa agricultura familiar orgânica, coisas feitas sem a máquina do dinheiro por trás.’ – Domenico Lancellotti

A cena musical brasileira tem a capacidade de sempre se reinventar e continuar atual. Hoje em dia, um dos responsáveis por isso tem sido Domenico Lancellotti. O músico carioca desde sempre viveu no ambiente do samba e da música popular, o que provavelmente o influenciou a tornar-se compositor, cantor e multi-instrumentista.

19732213_10155575916304106_2895592135315270259_n

Aos 44 anos acumula experiência e já deixou sua marca na música contemporânea. Já trabalhou em parcerias com grandes nomes da música brasileira como Caetano Veloso, Gal Costa e Adriana Calcanhoto.

4568d23e-e1aa-4eea-877c-0e9b23566c18_domenicolancellotti

Na minha música, tudo é muito misturado. A pintura é sempre um estímulo. Um efeito de guitarra, para mim, é como se fosse uma cor. Ou seja, na minha música sempre há uma imagem“, ele diz depois de ter completado o seu mais novo disco. Lancellotti é considerado um mago da música brasileira pela crítica especializada, tendo participado e produzido projetos conceituais de alta importância, como álbuns de outros artistas ou mesmo trilhas sonoras de filmes.

Serra dos Órgãos‘ foi gravado com os toques de músicos da cena contemporânea carioca como Bruno Di Lullo e Stéphane San Juan. Entre sons do futuro e sons da natureza, o disco garante uma experiência estética interessante.

19554362_1583356115042118_6338123622336276011_n

Em julho, Lancelotti lançou seu álbum solo ‘Serra dos Órgãos‘ no Brasil, pelo selo Lab 344. O álbum traz uma sonoridade mais serena e conta com participação de músicos como Bem Gil, Nina Miranda, Sean O’Hagan, Marlon Sette. Ele conversou com a gente sobre seu trabalho, sobre música e política na entrevista a seguir.

DP – De onde veio o nome do seu disco ‘Serra dos órgãos’ e como foi o processo criativo que você teve com esse disco, em particular?

DL: Esse disco começou devido a uma ocupação artística lá em Londres; e eu tive a oportunidade de trabalhar com um músico que eu gosto muito, chamado Sean O’Hagan e ele escreve para cordas e tal, então a coluna vertebral do disco é esse encontro. Eu produzi com ele nove músicas, mas usei seis. Eu fazia as músicas, mandava pra ele fazer o arranjo e depois nos encontramos lá e convivemos durante um mês produzindo essas coisas. Eram coisas instrumentais. Eu vim pro Brasil e no período seguinte a gente alugou uma casa num município secretario, subindo a serra dos órgãos, que é a serra que tem aqui, um reserva de mata atlântica que tem aqui no estado do Rio de Janeiro, perto de Petrópolis. É um lugar exuberante de natureza, o que sobrou, e a gente ficou lá e apareceram outras músicas. E eu gosto muito desse nome: “Serra dos órgãos”; e resolvi escolher esse nome. A principio o disco ia se chamar “Soundistant”, uma palavra inventada, metade em inglês, metade em português. Inclusive foi o nome do filme que eu apresentei no meu trabalho final nessa ocupação; um filme de arte que eu usei essas musicas e, não terminei ainda, acabei largando e fiz o disco.

DP – Você já produziu vários discos incríveis, já participou de várias turnês incríveis também, inclusive a que eu citei “O Recanto”, que é meu projeto favorito que você participou, e aí eu queria te perguntar, com tantos anos de carreira, que feito seu te deixa mais orgulhoso até agora?

DL: É muito difícil separar uma coisa especifica assim; no meio de tantas coisas, de tantos mestres que você encontra; Caetano, Gal, Adriana Calcanhoto… Mas agora, eu estou extremamente feliz porque a gente esta gravando um disco de inéditas com Gilberto Gil. Estamos convivendo com ele dentro do estúdio e tocando tudo ao vivo, como se fosse nos anos 60, aquela coisa de valendo voz, valendo violão, todo mundo tocando junto ao mesmo tempo. E isso é um aprendizado incrível, uma experiência incrível; eu tô ali por pura devoção também, eu adoro ele, a música dele, então acho que posso citar isso.

DP – Qual foi a maior lição que você aprendeu, enquanto artista ou enquanto pessoa, trabalhando com esses nomes que são verdadeiras lendas, não só da musica brasileira, mas da musica mundial, como Caetano, Gal, e agora o Gil, Adriana Calcanhoto; Enfim, qual foi a maior lição que você teve, dessa história que você esta vivendo, produzindo?

DL: Eu não estou produzindo disco, eu estou tocando no disco. Quem esta produzindo é o Ben Gil, filho do Gil. Uma coisa em comum em todos esses mestres é o fato deles terem vindo todos dos anos 60; acho que tem algo relacionado a isso. Mas é a extrema simplicidade, fazer as coisas com o que tem em frente, sem precisas mistificar nada; Fechar o olho, ligar a antena e estar ali com a música, sem nenhum outro subterfúgio. Eles são muito simples, nesse sentido. Tocar e pronto, vamos tocar; cada dia sai de um jeito mesmo, cada hora é uma maneira… E é só você estar atento, ligado.

0010684058_10

DP – Estamos vivendo uma fase de bastante crítica na politica brasileira; pensando sobre isso, eu me pergunto e te pergunto, em que e como a música produzida por artistas brasileiros que, na maioria das vezes, não circula pelas mídias mainstream – como o conglomerado Globo, por exemplo – podem colaborar para a superação dessa fase que é bastante difícil?

DL: Olha, eu não sei dizer…. Vivemos um paradoxo. Por um lado, muitas coisas muito ricas e boas estão acontecendo, no campo da medicina; Você, hoje, pode optar por qual tipo de tratamento você vai ter, que tipo de abordagem você vai ter em relação ao que você tem… Milhares de terapias alternativas e coisas assim; de agricultura também, milhares de maneiras de fazer, de comer e de você pensar na sua alimentação, música; Só que essas coisas, elas não chegam onde deveriam chegar, porque, a politica de governo, a politica no esquema é industrializada. Então eu acho que cabe a gente, como cidadão, buscar essas coisas que não são fáceis, que não estão na mídia, que não estão na televisão, e isso é uma atitude revolucionária. Ao invés de você dar o seu dinheiro pra comprar uma banana no supermercado, você pode comprar banana ali no rapaz que está vendendo na esquina, um ambulante ou na feira. Ao invés de comprar um remédio daqueles que você toma pra ficar mais doente, você pode procurar entender que tipo de coisa que vai, realmente, te curar, homeopatia, outra coisa. Tem milhares de outras escolhas. Então a gente fica o tempo inteiro tendo que lutar contra essa máquina aí. E a música que eu faço, ela tem a ver com essa agricultura familiar orgânica, coisas feitas sem a máquina do dinheiro por trás. Eu mesmo que invisto meus amigos também, todo mundo investe, porque ninguém recebe pra participar do disco. Então é muita luta mesmo, estamos aqui para isso.

DP – Se você pudesse indicar um disco ao Presidente Michel Temer, que disco seria esse e por quê?

DL: Poxa, que pergunta difícil. Eu acho que eu posso indicar qualquer disco de sertanejo universitário. Acho que ele pode ficar com um sertanejo universitário e passar mal (risos) com isso tudo que ele tá criando… Ele é só uma fachada, né? Eu digo sertanejo universitário, mas pode ser qualquer coisa dessas industrializadas… Eu desejo pra ele exatamente isso: música industrializada e comida industrializada também.

DP – Você fez ‘Miami Maculele’ com a Gal, no recanto, e aquela música tem uma influencia muito grande de funk, e alguns políticos institucionais no Brasil tem projetos que querem criminalizar o Funk. Como você enxerga isso?

DL: O Funk é uma música de favela; Como o samba, quando surgiu, foi criminalizado da mesma forma…. As pessoas proibiam até o cara a andar com um violão na rua. E isso é a história se repetindo; a gente acha que tá evoluindo mas, na verdade, tá no mesmo ponto. Agora o que você disse em relação aos adjetivos do funk, não sei, pode ser que sim, pode ser que tenham alguns que sejam machistas, pode ser que tenha alguns que sejam violentos, escatológicos e tal, mas é uma manifestação muito válida; e não se pode reprimir isso; o samba também tem vários lados, várias facetas e tem adjetivos parecidos com esses. Agora, as coisas aparecem por algum motivo, não pode é proibir.

DP – O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você que elas ainda não sabem?

DL: Eu não sei, acho que na atual conjuntura, quanto menos as pessoas souberem, é melhor.

Você pode seguir Domenico Lancellotti em suas redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter, além de ouvir sua música no Spotify.

Decupagem: Thais Carrijo

Por: Ali Prando Gustavo Andrade.