‘O público não é mais pego de surpresa pela MPBicha’. – Luís Capucho

Luis Capucho se considera low profile, faz música para ficar quieto e ouve música para ficar quieto, “fora de nosso tempo”. Talvez possamos associar essa quietude a seu ritmo mais arrastado, voz rouca, espaçada, mas jamais a seus versos crus, repletos de malicia, sensibilidade dissonante e linguagem visceral.

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São três discos, um show gravado e quatro livros lançados em sua carreira, conquistou o prêmio Arco-íris dos Direitos Humanos 2005 pelo romance ‘Cinema Orly’, seu primeiro romance. Foi gravado por artistas expoentes na MPB 2000, como Wado, Cássia Eller e Clara Sandroni.

Seu mais recente trabalho é ‘O Diário da Piscina’, que relata suas aulas de natação para recuperação de suas sequelas motoras, registradas entre julho de 2000 até abril de 2001.

Meu primeiro contato foi com a gravação do show antigo, o mais delicado de Capucho, daqueles que confortam e nos distanciam do momento por possuir beleza singular, mas que nos regurgitam para o presente através de sua franqueza que harmoniza a mesma beleza com o sujo e o banal. Seus discos se mostraram “mais sujos” com o decorrer do tempo, mas nada e em nenhum deles será reprimida sua singela graça.

Nessa entrevista, podemos descobrir um pouco mais sua transformação enquanto artista, reconhecimento, política e seu título de poeta maldito:

DP – Em “O Sublime na obra de Luís Capucho” critica escrita por Rogério Skylab são pontuadas suas mudanças estéticas e criativas devido ao coma em 1996, evidente ao compararmos o disco “Antigo” de 1996 e “Lua Singela” de 2003, sendo o posterior muito mais rude e vagaroso. Como você enxerga essa mudança? Seus métodos e processos criativos, de fato, mudaram?

LC: Sim, eu gosto muito desse texto do Rogério Skylab, porque além de ser um artista explicando um outro artista, é uma das poucas vezes em que minha obra é considerada como uma coisa só: livros e músicas. Ele vai buscar o Sublime na filosofia e eu sempre acho que ele está falando de Sublimação, mas não, ele fala de Sublime.
Sobre a minha estética, eu me lembro de quando eu estava em casa, acabado de sair do hospital, com as sequelas todas acirradíssimas – eu tive uma sequela motora que a minha médica, na época, chamou de incoordenação motora – e coloquei a fita k7 do show Antigo – um show que fizemos em 1995 – e, aí, eu chorei demais, porque eu não conseguiria mais repetir aquele som, minha voz estava toda modificada e eu não tinha mais destreza alguma de movimento para tocar o violão.

O tempo foi passando e demorei alguns anos para introjetar essa minha nova versão de mim mesmo, após o coma, e que modificou radicalmente a minha forma de fazer música. Por que eu tive de começar tudo outra vez e com dificuldades que não existiam antes. Eu estava reduzido a três, quatro acordes, tirados bem sujos do violão e estava com uma voz monocórdia, lenta e com pouquíssima extensão.

Quando consegui esses três acordes, já havia se passado quatro anos de meu coma. E, aí, comecei a ver que tinha uma estética nisso tudo: o meu violão espancado e sujo e minha voz mais grave e lenta demais. Também comecei a curtir as possibilidades que eu tinha aprisionado nos poucos acordes. Era uma liberdade ali dentro daqueles limites que eu adorei, porque eu só tinha ali dentro para me mover e isso era incrivelmente muito.
Hoje eu enxergo toda essa mudança, como uma ampliação de minhas possibilidades com a música. É como se, numa escala de números, eu tivesse avançado um pouco mais para os números negativos. Acho que nunca deixei de avançar, ora numa direção, ora noutra, entende.

DP – Esse ano o estado do Rio de Janeiro declarou calamidade financeira, com corte de gastos e sucateamento de serviços às instituições públicas. Como você está vivenciado esse período de crise político-econômica? Como isso está afetando o meio artístico/cultural em Niterói -frequentado por você?

LC: Olha, eu me vejo meio isolado, é assim que tenho me sentido no mundo dos artistas, um pouco por conta de dificuldades muito pessoais, ando meio desenturmado, muito comigo mesmo nas minhas questões. E a crise político-financeira do Estado, do Brasil, do Mundo faz com que eu sinta isso aumentado. Porque eu sou um artista contemplativo, faço música para ouvir, faço livro para ler. E num momento mais difícil para as pessoas, elas não querem muito saber disso. Querem, com toda razão, um tipo de arte que anime a festa, muita guitarra, muita bateria, muito baixo. Sou mais low profile. Faço música de ficar quieto, de ouvir. Devo estar um pouco fora do tempo.

DP – Alguns compositores no Brasil são classificados como poetas malditos – Jards Macalé, Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, Jorge Mautner são alguns deles e receberam esse título por produzir obras com estruturas e estética incomuns. Esse título também é vinculado a você. O que você pensa sobre isso?

LC: Esse lance do maldito começou com uma matéria do jornal O Globo em que o ACM dizia que astros da MPB tinham descoberto um novo poeta maldito. Eu tinha acabado de sair do meu coma por neurotoxoplasmose e a minha música tinha começado a chamar a atenção. Isso foi em 97. Depois, quando em 1999, foi publicado o meu primeiro livro “Cinema Orly”, essa ideia do poeta maldito foi reafirmada, porque o livro tem uma alta prosa poética, com altos defeitos e altas confissões, assim, o livro tem uma frequência muito sutil, elevada, embora seja sobre um cinema pornô aqui do Rio de Janeiro. E o lance de maldito foi se reafirmando a cada coisa que fui fazendo. Eu comecei a fazer música mais elaborada, como a feita pelo pessoal da dita MPB, mas o meu primeiro disco, o Lua Singela (Astronauta discos/2003), agradou mais ao pessoal do rock and roll punk, por conta de minha voz e violão sequelados. E se você for acompanhando minha produção, entre livros e discos, isso vai se confirmando mais. Até quando o Ney Matogrosso começou a falar de gravar um disco com os compositores considerados malditos da MPB e disse incluir a minha música Cinema Íris no repertório dele, do disco. Por fim, fiz o disco Poema Maldito (Independente/2014) numa espécie de lacre dessa ideia, onde fica incorporada a ideia de que a natureza da poesia, da arte que não é de animar a festa, fora do mercado, do mainstream, é que é o considerado maldito. Há artistas que não gostam de ser considerados malditos. Eu não ligo. Todos os que são ditos malditos, são considerados de alta qualidade. Para mim, não tem problema.

DP – Você conquistou o reconhecimento de artistas como Cássia Eller, Wado e Ney Matogrosso. Também conquistou o prêmio Arco-íris de Direitos Humanos, entre outros. Você se sente reconhecido pelo público brasileiro? O que a crítica especializada diz sobre seu trabalho, e como isso te afeta?

LC: Não, eu não sou conhecido do grande público. Meus livros, mesmo esgotados ou sem distribuição, começaram a ser objeto de estudo para o pessoal interessado nas questões de gênero nas universidades federais das grandes capitais. Sou um ilustre desconhecido. Eu agora tenho feito mais shows, estou cada vez aprendendo melhor como fazê-los. São shows para poucas pessoas. Eu fico feliz que pessoas andem repetindo eles, vão várias vezes, sinal de que têm sido bons. E eu gosto do que essas poucas pessoas me dizem. E os shows acabam ficando importantes.

Agora, no início de setembro vou lançar meu livro novo em BH e Vitória, o Diário da Piscina (É selo de língua – editora é/2017), sempre acompanhado de apresentação das músicas.

Até agora ninguém andou falando mal de mim, artisticamente. Por isso eu adoro quando falam, quando saio em algum jornal ou revista. Só teve um blogueiro de Goiânia que falou muito mal de meu livro Rato (Rocco/2007). Ele começou dizendo em seu blog que meu livro era um livro podre. E, aí, saiu desfiando o resto de merdas. Eu odiei ele de volta.

DP – Que discos e artistas te influenciaram ainda na infância e adolescência e que ainda aparecem na sua estética hoje?

Sou de Cachoeiro do Itapemirim, no sul do Espírito Santo. Então, na minha infância, ouvi a Jovem Guarda, a música brega e a música caipira, do interior de SP, que tocava nas rádios. Quando fiquei adolescente, conheci a música mais da classe média, a MPB. Esses estilos de música estão emaranhados na minha produção musical.

DP – Se você pudesse indicar um disco ao presidente Michel Temer, que disco indicaria?

LC: Que pergunta difícil! (risos) Ai, eu daria a ele um disco da Maiara e Maraisa ou da Marília Mendonça para ver se ele se sensibilizava com o nosso sentimento e dava uma direção ao país mais de acordo com a maioria de nós.

DP – Nos anos mais recentes, o Brasil realmente consolidou a MPBicha, através de nomes como Liniker e os Caramelows, As Bahias e a Cozinha Mineira, Johnny Hooker e outros. O que essa cena te diz mercadologicamente e esteticamente? Que diferenças discursivas você enxerga entre esses artistas que trabalhavam com questões de gênero e sexualidade dissidentes nessa época e na sua?

LC: Olha, eu sou um pouco resistente ao que aparece de novidade. Como eu te falei, na minha adolescência eu entrei na música da classe média brasileira, a dita MPB. E, aí, quando veio o pessoal do rock dos anos 80, eu demorei demais para assimilar o Cazuza e o Renato Russo, que são artistas genuínos. Outro dia eu perguntei ao Bruno Cosentino se ele achava se os rapazes do que você chama MPBicha iriam ficar. Ele me respondeu que tudo dependeria da produção deles. Na verdade, eu preciso conhecer mais. Mas, por exemplo, o que mais tocou por aqui até agora foi o Johnny Hooker. Então, eu já achei ruim de cara. Quer dizer, eu gosto do lance viado, da estética viada, acho isso uma novidade, ser escancaradamente viado, mas, musicalmente, era uma música saída da ‘Vapor Barato’, do Jards Macalé, então, sem novidade alguma. Isso não me enleva.
E eu lancei o meu ‘Diário da Piscina’, aqui no Rio, na estréia da peça Cabeça de Porco, que é uma peça baseada na minha obra lítero-musical e encenada pela ‘Prática de Montação’, do Diego Deleon. Isso foi no Galpão Gamboa e no mesmo dia, ao lado, estava para acontecer um baile dos Não Recomendados. Eu gostei do movimento. Era animação de festa total. Nós estávamos lançando o livro do lado de fora e animou total o lançamento. Ficou um lance meio de pegação ali na frente. Acho legal isso, arejar um pouco a heteronormatividade, como dizem.

Sobre as épocas, acho que, no início, os artistas que começaram a ter a sua arte assimilada às questões de gênero – Secos & Molhados, Les Etoiles, Dzi Croquetes… – pegaram o público tão de súbito, que não restou outra reação a não ser a de boquiabrir-se. Hoje não é mais assim. O público não é mais pego de surpresa pela MPBicha. Depois de tantas conquistas de direitos, temos um público mais inteirado com os artistas. E, de outra parte, um público mais reativo também.

DP – O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você que elas ainda não sabem?

LC: Ninguém sabe nada de mim (risos) mas eu conto tudo nos livros e músicas!

Por: Lucas Kairof e Ali Prando