“No Brasil de agora, além de desvalorizados, os artistas são marginalizados e considerados supérfluos” – Lucas Vasconcellos

Por: Ali Prando

Petropolitano, Lucas Vasconcellos é compositor, produtor, cantor e multi-instrumentista com mais 20 anos de carreira.

Em seu estúdio Pavão Preto, localizado na serra fluminense, vem produzindo álbuns e faixas de músicos indies, Dado Villa-Lobos, Rodrigo Amarante, Lucas Santtana, Marcelo Jeneci, Tiê, Alice Caymmi. Agora Lucas grava seu quarto disco solo, com lançamento previsto para 2020.

Com uma trajetória dinâmica, nos anos 2000, ele fundou a banda Binário (2000-2008) – projeto que misturava rock, eletrônico e intervenções urbanas audiovisuais – e, em seguida, a banda Letuce (2008-2016) com a cantora e compositora Letícia Novaes, que agora assume a persona de Letrux.

Seu mais novo single é “Abissal“, nascido de uma sessão de improvisação livre com Lucas e o pianista e arranjador Roberto Pollo no estúdio da RockIt, no Rio de Janeiro. Encantado com o resultado, Lucas convidou a poeta e arquiteta Paula Gusmão para compor com ele a letra.

Em entrevista ao DiscoPunisher, o artista fala sobre seu processo criativo, o que significa ser artista e sobre a cena de música brasileira atual:

DP – Quais são as dores e as delícias de ser artista no Brasil atualmente?
A dor é perceber a falta de valorização da arte.

Nos lugares onde se cria uma cultura de amor e valorização das artes por parte do Estado, das instituições privadas e das instituições pedagógicas, as cenas se desenvolvem e o público , nesse embalo, passa a prestigiar os eventos nos quais esse Estado e essas instituições privadas apostaram suas fichas. Isso é um círculo virtuoso pra cultura de um lugar.

No Brasil de agora, além de desvalorizados, os artistas são marginalizados e considerados supérfluos.

A delícia é ver que mesmo com tanta coisa jogando contra,  a produção de arte e cultura no Brasil é incrivelmente original e profusa. Isso é resistência. É se recusar a parar.

DP – Como funciona seu processo criativo?
Cada hora é de um jeito. Até mesmo dentro do mesmo projeto, do mesmo disco. Músicas nascem de tantos jeitos, vão se construindo, perdendo peças, ganhando terrenos psíquicos dentro da gente, avançando, colidindo, retrocedendo. Fazer uma música é “negociar” com você mesmo o tempo todo. Em alguns casos, elas vêm de um vez, sem freio e quase que nascem prontas. Algumas vezes as parcerias inspiram, noutras a solidão é quem rege a orquestra. Muitas vezes as artes plásticas me inspiram, os sons aleatórios do mundo dão idéias, uma conversa com alguém me traz algo imperdível. Eu não tenho um método. Procuro estar atento aos acasos e gravo sempre tudo no celular.

Nos últimos tempos eu vinha criando muito com samplers, loops e efeitos de processamento em tempo real. Recentemente me reaproximei do violão e do piano novamente. É com eles que tenho composto as músicas pra esse ano. Tudo muda sempre.

DP – O que você mais ouve e mais gosta na atual cena de música brasileira?
Eu escuto muita coisa, minha vida é cercada de todo tipo de música. Quando vou escutar música recreativamente, escolho trabalhos como o da Duda Brack, que escuto sempre, O Terno, que sou muito fã, Jards Macalé com um disco novo incrível, A Banda Mais Bonita Da Cidade fez um disco maduro e sensível. A Maria Luiza Jobim, a Alice Caymmi, o Thiago Nassif, uma banda chamada Glue Trip que conheci recentemente e achei ótima, o Far From Alaska que eu vi um show e fiquei de cara também. O trio instrumental Beach Combers, o Rosabege, o disco novo do Kiko Dinucci. É certo de que estou esquecendo vários que amo.

DP – O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você que elas ainda não sabem?
Nada (risos). Gosto de acreditar que quanto menos souberem da minha vida, mais vão ter imaginação sobre a minha música, mas a real é que eu sou mais reservado mesmo, não é nenhuma estratégia.