“Precisamos urgentemente de bacuralizar mais”. – Karina Buhr

Karina Buhr permanece em combustão. Depois de “Selvática“, álbum que tinha impactantes cyberfeitiços feministas, como “Esôfago“, “Pic Nic” e a própria música título, com versos gravados pela atriz Denise Assunção e Elke Maravilha (aliás, seu último registro musical), ao final de 2019, ela lançou seu quarto registro de estúdio “Desmanche“.

O novo disco é produzido por ela e Regis Damasceno, e como um rio que flui, continua a saga iniciada por Karina Buhr com seu álbum de estreia, em “Eu Menti Pra Você“. “Desmanche” é uma carta de amor aos ritmos latinos, aos carnavais e recbeats – ou como a artista mesmo define, é “punk de tambor“.

No palco, Karina Buhr assume uma espécie de guerreira-amazona, toca instrumentos de percussão, e canta sobre a necropolítica brasileira, as mazelas do neoliberalismo e intolerância religiosa – não a toa, a artista participa também de um show em homenagem ao filme “Bacurau“, ao lado de Ava Rocha, Fernando Catatau, Lia de Itamaracá e outros.

O figuro é composto por Gustavo Silvestre, estilista responsável pelo projeto Ponto Firme, no qual presos aprendem crochê e criam peças de moda. O mapa de cores de Ana Turra amarra o show, e encaixa-se bem no repertório, por vezes intimista (“Amora“/”Filmes de Terror“), ora frenético (“Temperos Destruidores“/”A Casa Caiu“). A banda é toda nova: além das guitarras de Regis Damasceno, Charles Tixie toca MPC e programações eletrônicas, e Maurício Badé na percussão, dão novos timbres para aquilo que antes era rock’n’roll puro e destilado.

Mas Karina não é punk só em sua estética. Se ela consegue esses resultados brilhantes, é também por conta de sua ética: cotidianamente ela se posiciona contra machismo, homolesbotransfobia e opressões estruturais e é sobre tudo isso que é essa entrevista – e música, é claro!

DP – ‘Desmanche’ é uma carta-afetiva, um manifesto, uma bomba (?) poética que dialoga com o status necropolítico brasileiro, ou seja, o poder de decisão do Estado sobre quem deve e como deve morrer e quem deve e como deve viver. Diante desse cenário político, qual é a função do artista?
KB: Acho que a função dos artistas é a mesma de todo mundo. Acho que todo mundo tem que botar a mão na massa com responsabilidade nas escolhas. Ter poder de escolha é muitas vezes um privilégio mas também pode ser uma decisão, podem ser coisas pequenas que fazem diferença. Na base do cada um por si a gente não chega em nenhum lugar. Falo que acho igual pq não vejo com deslumbre a profissão, trabalhar com arte. Sobre atingir públicos grandes isso nem sempre faz sentido porque tem muita gente que não é artista e atinge muito mais gente. Acho que existe um romantismo também sobre isso. Tem muita gente com trabalhos que não tem tanta visibilidade mas que influenciam pra pior a vida de todos, sem o menor senso de responsabilidade e com discurso bonito. Acho que essa bomba tá na mão de todo mundo.

DP – A formação da banda de ‘Desmanche’ não é a mesma formação dos discos de ‘Selvática’, ‘Longe de Onde’ e ‘Eu menti pra você’. Como surgiu a decisão de trabalhar com outra banda em seu quarto registro de inéditas depois de tanto tempo em conjunto?
KB: Foi por a gente já ter feito tanta coisa junto e eu ter a necessidade de mudar a maneira de fazer. De trazer a percussão de volta pro centro do meu trabalho, testar sons novos, novas maneiras de pensar arranjos coletivamente.

DP – A crítica especializada e a imprensa tem dito que esse é seu melhor álbum. Qual é a sua definição de sucesso no atual mercado fonográfico de streaming, que privilegia festivais, feats, likes em redes sociais etc? Como você lida com as tendências atuais do mercado audiovisual brasileiro?
KB: E é? Nem sabia disse de ser considerado o meu melhor disco hahaha! Acho massa quando sai crítica legal porque divulga o trabalho, corta caminhos, porque chegamos mais rápido em pessoas que talvez nem chegássemos sem isso. Mas não levo muito a sério no sentido de adotar pra mim essas opiniões. E nem tampouco consigo comparar um disco com outro, acho que cada um é cada um, não vejo muito parâmetro nem necessidade pra comparação. Sobre isso de sucesso e mercado nunca tive muita paciência e tenho cada vez menos. E tenho uma canseira de tanta exposição, tanta rede social, dá vontade de correr pro mato. Definição de sucesso acho que talvez seja a pessoa fazer muitos shows, pra muitas pessoas diferentes umas das outras, em lugares diferentes, com cachês ótimos e pouco wifi, mas desses itens o que tenho é tocar pra gente de muitos lugares e isso me deixa feliz.

DP – Cada vez mais, você dá abertura para que o público entre em seu universo estético e íntimo, seja através da publicação de livros de poema, ilustrações, crônicas em jornais ou com a ´produção e composição de “Desmanche”, seu mais novo show/disco, fotografias. Que obras e artistas inspiram toda essa produção estética ampla?
KB: Nunca consigo responder isso. Tudo me inspira e nada em particular relaciono com influenciar diretamente o que faço. As coisas vão passando a fazer parte de forma natural. A rua e o que tá dentro da gente, fora das instituições é com o que mais me identifico. O carnaval de rua de Pernambuco, com todas suas mil e quinhentas faces é minha maior escola sempre.

DP – O Brasil tem tido cortes estruturais nas pesquisas acadêmicas, nas mais diversas formas de arte, como música, cinema. O que você acha que pode acontecer para a arte brasileira num governo que mina as potências artísticas e até que ponto a cultura brasileira precisa desse tipo de incentivo para se movimentar e manter um dinamismo criativo?
KB: Acho que a criação, a arte em si independe de governos, o que depende de governos são as realizações de muitos tipos de arte e a difusão. Só vejo trevas nesse sentido, uma facada em tanta coisa boa que vem sendo construída a tanto tempo. Mas artes irão de fluir. É triste ver o q acontece com o cinema, ver as censuras e a burrice escancarada. Mas a arte brasileira não vai morrer não. Sempre existiu uma distância muito grande entre o mainstream nacional e o que se faz ali no chão do barracão, no terreiro, na ladeira. Isso vai seguir assim. Mas acredito que a gente sobrevive. Mas teremos que ser mais raivosos, brabos, menos passivos na ação (os discursos já são lindos), precisamos urgentemente de bacuralizar mais.

DP – Os feminismos sempre estiveram muito presentes dentro do seu trabalho, seja pelos outfits que você usa em cena, pelo fato de tocar instrumentos e assinar a produção de timbre por timbre de suas músicas, ou mesmo pelas suas composições. Quais são as principais demandas das artistas femininas aqui no Brasil atualmente?
KB: A principal demanda é a de sempre, conquistar as porras dos espaços todos e também fazer as pessoas todas ente detém que não existe uma estética feminina na arte mas a estética de pessoas. Precisamos com urgência parar de ser vistas como exóticas, “um ponto de vista diferente”, coisas de um tal de “universo feminino”, que eu não tenho a menor ideia do que seja…precisamos de muito ainda mas, sobretudo, os homens precisam melhorar. A educação dos meninos brasileiros está mudando mas o entorno ainda acaba com tudo. Homens, melhorem, pelo amor de Jah, de Jeová, de Jesus, de todos os orixás e entidades!

DP – Se você pudesse indicar um disco ao presidente Lula, que disco seria esse?
KB: Desmanche. Pra ele conhecer (risos).

Por: Ali Prando


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