“Quando damos voz a um discurso importante sobre direitos humanos, fazemos ecoar a resistência” – Ed Moraes | Harvey Milk.

Milk foi um dos ativistas pelos direitos LGBTs mais importantes do século 20. Assumiu sua homossexualidade publicamente nos anos 70, sendo o primeiro homem gay assumido a ser eleito a um cargo público nos Estados Unidos.

No cinema, dirigido por Gus Van Sant, o responsável por interpretar Milk foi Sean Penn, que ganhou o Oscar de Melhor Ator por sua performance nas telonas por conta deste longa.

Se uma bala entrar em meu cérebro,
deixe que a bala destrua cada porta de armário.
Harvey Milk.

Nos teatros, Harvey Milk é interpretado por Ed Moraes, entrevistado de hoje pelo portal DiscoPunisher. A peça é inspirada nos últimos dias da vida do ativista norte-americano, assassinado em 1978. A dramaturgia estabelece um contraponto com a realidade brasileira através de um fictício passeio do personagem real, que vai do Brasil Colonial até os Estados Unidos da década de 70. A peça está em cartaz no Sesc Pinheiros, até 14 de março. Leia a entrevista com o ator Ed Moraes:

DP – Como foi o processo criativo da peça “Eu Não Sou Harvey – O Desafio das Cabeças Trocadas”?
EM: O processo é uma descoberta diária. Com este não foi diferente. Eu vivi -e vivo- misto de desafio e alegria de poder levar esse discurso defendido por Harvey Milk até hoje. Cada ponte que fazemos com o aqui, ano de 2020 no Brasil, me faz perceber o quão urgente é falarmos sobre a violência que nos assola. Ela é mundial, mas nessa escalada, nosso país alcança o ranking de violência e morte a população LBGTQI.

Ao ler o texto construído por Michelle Ferreira através de minhas indicações, pesquisas e sugestões, tive um crise de choro. Tava tudo ali no texto o meu recado como artista. Espero poder levar a frente por muitos anos.

DP – O Brasil tem vivido processos políticos extremamente intensos nos últimos anos, com viradas ao neoliberalismo e imaginário à direita. Qual é a importância de personagens como Harvey Milk no contexto sudaca?
EM: Fazer cultura no Brasil nunca foi fácil. Agora, no contexto político, se torna até arriscado. Perigoso. O teatro precisa refletir o seu povo. Não podemos nos alienar. Quando damos voz a um discurso extremamente importante sobre direitos humanos, principalmente LGBTQI, protagonizado por um dos ícones dessa luta, fazemos ecoar a resistência necessária a esse onda conservadorista global. Representatividade não é piegas. É o mínimo para uma sociedade mais justa. No fundo, o que está em jogo é a justiça. É por ela que sigo dando voz a este personagem.

DP – O movimento LGBT, segundo teóricos queer, tem sido cooptado por políticas que não incluem a todes nós, como casamento ou adoção por casais gays/lésbicos, enquanto travestis continuam sendo assassinadas e sem acesso a educação/família/trabalhos formais. Como escapar dessas políticas higienistas e mercadológicas?
EM: Acredito que tudo é um processo de construção. Política pública também é construção. O homem americano branco Gay cooptou até a representatividade das travesti e trans na primeira marcha do orgulho LGBTQIA dos EUA (na época outra sigla). Qualquer lugar que houver um ser humano que não respeita o lugar do outro, estamos à mercê disso e esses espaços devem ser conquistados através da luta, assim sempre foi e precisamos continuar. Mesmo já existindo algumas políticas de tentar mudar esse quadro, ainda existe muito a ser feito. Enquanto tivermos uma pessoa LBGTQIA+ morrendo por dia (como acontece hoje no Brasil), precisamos resistir e principalmente dar espaço e voz a todes.

Serviço:
Eu Não Sou Harvey
De 13/02 a 14/03/2020
Quinta a sábado, 20h30
Sesc Pinheiros
Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros – São Paulo – SP, 05424-150
Telefone: (11) 30959400
Preço: R$ 30,00
Você pode comprar ingressos para a peça clicando aqui.