“A cultura do cancelamento limita o pensamento e a possibilidade de trocas e diálogos”. – Letrux

Na última semana, Letrux, alter-ego da tijucana Letícia Novaes, lançou seu segundo registro de inéditas. Depois do sucesso de “Em Noites de Climão“, a artista aposta agora em “Aos Prantos” – são treze faixas que misturam influências de rock, trip-hop, e música eletrônica, numa linguagem poética que só mesmo Letrux poderia compor: “Se organizar direito, todo mundo chora“, ela nos antecipa sobre os tempos que já estamos vivendo, e os tempos que ainda virão.

Saindo do clima de pista de dança, “Aos Prantos” é mais soturno, e de certa forma, produz respostas estéticas ao Brasil Bolsonarista: “Não dá pra ter bebê, não dá pra ter um carro, não dá pra ser no débito (…) não dá pra acreditar, não dá pra ser”. É possível dizer que “Aos Prantos” funciona então como uma carta de amor ao Brasil, que por vezes olha para nossa situação com lamentação, e outras vezes, acende um olhar teso.

O novo disco, que saiu pelo selo Natura Musical, tem produção dividida entre Arthur Braganti e Natália Carrera, parceiros desde o último disco, e que também dividem os palcos com Letrux – assim, a cada timbre, é possível ouvir a intimidade com a qual o álbum foi feito. O título do disco remete às águas, ao choro, àquilo que é salgado – durante a jornada de “Aos Prantos” não faltam referências à isto.

Em entrevista exclusiva ao DiscoPunisher, Letrux fala sobre filosofia, o cancelamento dos juízes das redes sociais, seu processo criativo e parcerias. Leia com lenços por perto:

DP – Que feito seu até agora te deixa mais orgulhosa?

L: O feito profissional é o momentâneo, sempre. Letrux Aos Prantos é meu maior orgulho. Assisti o documentário sobre a vida do Miles Dives nesse isolamento: “Birth of the cool”, e ele era muito conectado com o trabalho atual. Pessoas querendo pagar uma grana pra ele reproduzir “Kind of blue”, e ele só interessado no trabalho atual que estava fazendo. Achei muito curioso e louvável.

Compreendo que tudo que fiz até aqui então, colaborou para minha formação artística e até mesmo humana. Não rejeito nada, nem minha primeira bandinha de rock, não tenho prazer ouvindo minha voz naquelas gravações mas compreendo a importância criativa em ter gravado um disco com 22 anos. Mas eu estou apaixonada, num relacionamento sério com Aos Prantos. Nunca me ouvi de maneira tão livre, estou me criticando bem pouco, é raro. Melhorei.

DP – “Aos Prantos” tem como base a produção de Arthur Braganti e Natalia Carrera. Como foi o processo criativo deste disco em particular e como você escolheu as parcerias que teria nele, tais como Liniker, Lovefoxx e outres?

L: Foi um processo cósmico e caótico, ao mesmo tempo. Ao passo que a turnê do “Climão” ia acontecendo, nas pequenas horas de descanso, de modo avião, de reflexão, eu me permitia desenvolver algumas ideias, ideias essas que às vezes surgiam no turbilhão. Eu nunca acreditei nisso de “preciso me desligar das redes, ir pro mato e aí sim vou escrever um livro, compor um disco”. Respeito quem precisa disso, eu também amo me isolar no mato, mas a realidade é outra, então eu crio alguns momentos de disciplina e me conecto. E mesmo na hora indisciplinada, também há conexão, caso eu deixe meus canais abertos. Eu leio um livro e pimba! Surge uma ideia, sabe? Vejo uma série e sei lá, a orelha da atriz me lembra uma história e lá vou eu, criar.

Amo a cabeça do Arthur, somos melhores amigos há anos já. Somos opostos complementares, temos essa ponte direta, criativa, compomos juntos, já escrevemos peças juntos, o lance flui.

Conheci a Natália para fazer o “Climão” e fiquei boquiaberta com seu talento, sua sabedoria, sua capacidade criativa insana. Natália e Arthur juntes são bem diferentes, mas gosto disso, desse fogo e dessa água se juntando, é um choque, é curioso, cada pessoa agrega muito, além da banda que também é excelente e eu sou muito grata por isso.

Liniker é uma artista daquelas que abre a boca e você já fica hipnotizada. Estamos juntas no Projeto Acorda Amor, o que muito me honra porque o elenco é impressionante. Sempre quis fazer algo com ela, e quando compus esse blues com meu romance, Thiago Vivas, pensei nela na hora. Achei que iria casar o vozeirão dela nesse blues. E quando ela entra não tem quem não se arrepie.

Luisa foi uma paixão à primeira vista, treco doido mesmo. Sempre amei, sempre fui fã, CSS faz parte da minha criação, a gente usava letras das músicas como piadas internas aqui no Rio, era muito engraçado. E aí eu a conheci no dia do Popload, pude ver a volta delas, o frisson que elas estavam, coisa linda e bela de se ver. Começamos a papear, minha admiração por ela só aumentou, ela é uma artista e um ser humano totalmente fora da curva, amo isso, amo. “Fora da foda” é uma canção muito a cara dela, fez total sentido ela participar. Um luxo.

DP – O filósofo coreano Byung-chul Han diz que atualmente não vivemos mais na Sociedade de Controle, como pressupunha Foucault, mas sim na Sociedade da Performance, algo que exige que o choro seja excluído de nossos corpos e atividades cotidianas, já que só há tempo para produzir e consumir… O que me leva a perguntar: o que geralmente te faz chorar?

L: Titi me apresentou esse filósofo, li Agonia do Eros e fui capturada e bastante sacodida. Lamento profundamente que muitas pessoas creiam que a vida seja só produzir e consumir. Entendo também que a culpa não é delas, apesar de sempre acreditar em uma intuição que ganha do ensinamento. Mas isso sou eu. Não posso achar que pessoas que foram condicionadas vão de repente despertar para algo maior.

Enfim… Divagando apenas para dizer que geralmente o que me faz chorar é quando a emoção ganha meu corpo inteiro. Por vezes consigo manter a emoção mais cerebral, o que é bom, porque me ajuda a ter mais controle, nem sempre quero ser totalmente à flor da pele, visto que já sou sensível. De repente a emoção desce pro coração e aí vou sentindo que meu corpo realmente é feito de água, esse mistério, essa maluquice, essa simplicidade, água. Daí quando estou tomada por uma emoção, seja musical, seja de relações, família, mundo, aí o pranto está formado e feito e sai do meu corpo.

DP – Outro sintoma social cotidiano atual é a chamada “cultura do cancelamento”. O que você pensa sobre isso e como esse tipo de comportamento te atinge enquanto artista?

L: Acho que a vida é bem complexa e bem mais subjetiva do que as gavetas permitem. A cultura do cancelamento limita o pensamento e a possibilidade de trocas e diálogos. Já estive em algumas situações de cancelamentos, fui atingida de maneira violenta e drástica, o que eu odeio. Gosto muito de uma frase da Karina Buhr, que ela disse há anos já. Alguém se decepcionou com ela e disse algo como “não te amo mais”, risos. E ela disse “não quero amor fraquinho não”. Amar alguém é algo complexo e esse endeusamento de artistas não favorece essa complexidade. Deusas me livrem ser uma fada sem defeitos, sabe assim? Tenho 38 defeitos, um pra cada ano da minha vida. É brabo, é dose. Estive em situações que me exigiram respostas em 5 minutos, estive em momentos de violência internética, todos protegidos com seus apelidos que não revelam nomes, fotos de cachorro, gato, tudo bem duro pra mim, que sou uma pessoa que expõe a cara, a coragem, as vísceras, enfim.

DP – Patti Smith, Madonna, Clarice Lispector são alguns dos nomes que inspiram a gramática audiovisual de seu disco anterior. E dessa vez, o que te fez inspirada para essa nova era?

L: Eu estive em noites com o “Oráculo da Noite”, do Sidarta Ribeiro, tem muitas citações a sonho e a dormir no disco. Eu fico perplexa com essa morte momentânea, esse falso desligar do corpo toda noite, por horas. Eu amo dormir, sonhar. Acho que de fato vivo aquilo, acordo sentindo que realmente fui pra Rússia voando e chegando lá tinha um tobogã e o ator que faz ‘Friends’ morreu, sabe umas coisas assim? Eu acordo e demoro a entender que não é real, e amo isso.

Também li “Esboço para uma teoria das emoções”, do Sartre, teve qualquer coisa sobre organização das emoções que me serviu em ‘Deja Vu Frenesi’. Eu li muita poesia esse ano, tive um abraço sem volta da poeta portuguesa Adília Lopes, esquisitíssima e maravilhosa. E também li uma obra prima chamada ‘I Love Dick’. Apesar de falar inglês, sempre prefiro ler as traduções, por respeito à profissão de quem traduz e por falta de vocabulário também, mas esse foi o primeiro livro que li em inglês, e é espetacular, sensacional, genial – ouso dizer. Há uma série na Amazon baseada nesse livro que também é um primor de trabalho. Atuação, adaptação, trilha sonora. Tudo isso me abraçou muito nos últimos anos.

DP – O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você que elas ainda não sabem?

L: Puxa, não faço ideia. Acho que eu gostaria até de ser mais misteriosa, artista mistério, mas os tempos atuais não permitem, nem meu mapa astral, talvez! Acho que as pessoas não fazem ideia que eu sou bem caseira e família. No Climão, muita gente confundiu a personagem e quis me levar pra cama, como cantou Lulu Santos, foi fatal! Hahahaha! Nem sou muito da noite, mas gosto de brincar e criar em cima de símbolos, arquétipos, mas eu Letícia não gosto de sair muito de noite. Como te disse na outra pergunta, prefiro sonhar. Sou um pouco chata. Muita gente escreve “casa comigo, quero ser sua amiga”, mas as pessoas se apaixonam pela música e não fazem ideia que eu posso ser difícil e chata no meu dia a dia, enfim. Muita coisa!

Por: Ali Prando
Colaboração: Belmira Comunicação